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domingo, 6 de abril de 2014

José de Anchieta: vida e milagre

Redação: Maria Clara Bingemer

O canário de ascendência judaico cristã nova José de Anchieta nem imaginava que tantos séculos depois de sua passagem pela terra brasilis seria objeto de tamanha atenção por parte da mídia e subiria aos altares como santo. Era bem jovem quando, em Portugal, sentiu o chamado de Deus e entrou na Companhia de Jesus como irmão.

De saúde frágil, sofrendo de espinhela caída, chegou ao Brasil com 20 anos de idade e recebeu do Padre Manuel da Nóbrega, que aqui já se encontrava, a incumbência de dar prosseguimento à construção do colégio de São Paulo, no planalto de Piratininga, na qual estava empenhado. Foi a partir deste que Anchieta abriu os caminhos para o sertão e com os índios aprendeu a língua tupi.

Das mãos apostólicas de Anchieta floresceu a cidade que hoje é a mais importante do Brasil. O colégio foi o embrião desta. E Anchieta participou ativamente de sua fundação, em 25 de janeiro de 1554. Deste fato dá testemunho uma carta do missionário, onde diz: “A 25 de janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos, em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo e por isso a ele dedicamos nossa casa!”

A ação apostólica de Anchieta não consistiu apenas, no entanto, em construir este colégio. É de enorme importância sua atuação junto aos índios, aos quais cuidava não apenas de catequizar como também de defender dos abusos dos colonizadores portugueses, que muitas vezes os brutalizavam, escravizando-os e tomando-lhes as mulheres e filhos.

Hábil interlocutor dos indígenas e mediador de situações espinhosas, Anchieta desempenhou importante papel no preparo do armistício entre os tupinambás de Ubatuba e os tupis, em Iperoig. Intermediou igualmente as negociações entre portugueses e indígenas reunidos na Confederação dos Tamoios, oferecendo-se inclusive como refém dos tamoios, enquanto o Pe. Manuel da Nóbrega retornava a São Vicente para ultimar as negociações de paz.

Além de apóstolo, estrategista e mediador de conflitos, Anchieta também se destacou no campo das letras. Com frequentes viagens ao sertão e a aprendizagem da língua tupi, compôs a primeira gramática desta língua que, na América Portuguesa, foi chamada de “língua geral” e se tornou o principal instrumento de comunicação entre europeus e nativos.

Além disso, era literato e poeta. Compôs peças de teatro na “língua geral”, encantando os índios com a atividade teatral que lhes servia igualmente de aprendizado. Escrevia com perfeição em português, latim e tupi. Foi em latim que compôs suas duas grandes obras: um poema sobre a Virgem Maria com mais de 4 mil versos e uma obra sobre os feitos do governador Mem de Sá. Conta a tradição que o poema sobre a Virgem foi escrito primeiramente nas areias da praia de Iperoig, quando era refém dos índios tamoios, e apenas posteriormente passado para o papel.

Anchieta era devoto de Maria, mãe de Jesus, desde muito jovem. Em meio às durezas e dificuldades da vida missionária do Brasil colônia, certamente essa devoção deve tê-lo ajudado a enfrentar vicissitudes e superar obstáculos. Sintomaticamente o poema à Virgem se dirige à “Stabat Mater”, a Dolorosa, à qual tantas vezes deve ter rezado em sua terra natal, a Mãe das Dores, sofrendo cruelmente pela paixão do Filho. A ela se dirige o apóstolo do Brasil neste poema que se tornou um clássico da literatura nacional e celebrizou seu autor como homem de letras.

Morto em Reritiba, aos 63 anos, Anchieta é uma das chaves de explicação do processo fundacional de nosso país. Sua vida rica e fecunda, sua intensa atividade missionária, educacional, literária, são a pedra fundamental sobre a qual se apoia boa parte do que será a matriz da cultura brasileira.

Por isso, aos que se admiram de o Papa Francisco tê-lo canonizado sem que se tivesse notícia de um segundo milagre realizado por sua intercessão, a resposta é simples. O milagre é a própria vida deste homem, assim como a de todos os santos. Milagre é ser mortal, finito e contingente e, no entanto, deixar-se totalmente impregnar pela graça de Deus. Milagre é deixar para trás todas as possibilidades de futuro e dedicar a vida à missão de fazer crescer o Reino de Deus em terra que não era a sua. Milagre é amar como filhos a homens e mulheres que nem conhecia e dedicar-se a educá-los, com eles conviver na amizade e na proximidade.

E celebrando e agradecendo esse milagre, pedimos: São José de Anchieta, rogai por nós.

Fonte: http://www.domtotal.com.br/

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quinta-feira, 3 de abril de 2014

O Silêncio

É ruidoso o mundo em que vivemos. Há demasiadas máquinas de fazer barulho: telefone, fax, rádio, TV, veículos, campainhas. Nosso cérebro habitua-se tanto à sonoridade excessiva que custamos a desligá-lo. Uns preferem remédios que façam dormir. Outros, a bebida.

Assusta-nos a hipótese de manter a casa em silêncio. Decretar o jejum de ruídos; desligar rádio, TV e telefone. Isso pode levar ao pânico. A “louca da casa”, a imaginação, entra em rebuliço, supondo que há uma notícia importante a ser ouvida ou um telefonema de urgência a ser recebido. Ou experimenta-se o medo de si mesmo. Sentir-se ameaçado por si mesmo é uma forma de loucura frequente em quem, súbito, vê-se privado de sons exteriores. Como alguém preso no elevador. Não é a claustrofobia que amedronta. É o peso de suportar-se a si mesmo, entregue aos próprios ruídos interiores.

No antigo mundo rural, o silêncio era companheiro. Não havia meios de comunicação e as distâncias, cobertas a pé, a cavalo ou de charrete, faziam do viajante solitário cúmplice do silêncio emanado da paisagem. A fé evocava a presença invisível de Deus, santos ou fantasmas.

O silêncio é a medida do amor. Só quem se ama sabe curtir o silêncio a dois. O silêncio queima quando há muito o que falar atravessado na garganta. Se a presença do outro incomoda, o silêncio pesa toneladas. E, na falta de diálogo, corre-se o risco de explosão. É qual uma represa prestes a romper o dique e afogar quem se encontra pela frente. De repente, a emoção reprimida arrebenta e, em volta, chovem, em estilhaços, o respeito, a cortesia, a honra própria e a alheia. As palavras multiplicam-se, sôfregas, na tentativa de aliviar a tensão.

Os monges nutrem-se de silêncio. O monge vem de monachós, solitário. Nos mosteiros e conventos aprendemos a gostar da solidão, ouvir a voz interior, estar só para sentir-nos intimamente acompanhados, tapar os ouvidos para escutar e auscultar Aquele que faz em nós Sua morada. Enfim, fechar os olhos para ver melhor.

Os índios tribalizados sabem fazer silêncio. Como os monges, valorizam as palavras. Assim são também os orientais, comedidos em suas expressões. Já os ocidentais são parladores, falam muito e dizem pouco.

No Evangelho, Jesus recomenda não multiplicarmos as palavras na oração. O Pai sabe de que necessitamos. Todavia, somos desatentos ao conselho. No Ocidente, falamos de Deus, a Deus, sobre Deus. Quase nunca deixamos Deus falar em nós. Agimos como aquela tia que liga para minha mãe: fala tanto, que nem se dá conta de que mamãe larga o fone, vai à cozinha mexer a panela e retorna.

O silêncio constrange quem não sabe acolhê-lo. Imagine uma refeição na qual, de repente, todos se calam em torno da mesa. No entanto, outrora os monges comiam calados. A única voz era a do leitor, que cuidava de nos alimentar o espírito enquanto nutríamos o corpo.

A meditação é a escola do silêncio. Como a nossa cultura é avessa a essa prática, tememos fazer calar as vozes exteriores e interiores. Quem medita sabe mergulhar no silêncio e enxergar o que não se pode ver à superfície.

Há pessoas tão densas de silêncio que, sem nada dizer, bradam alto. O silêncio do sábio é eloquente, como o do santo é desafiador. Ao se calarem, excluem-se da competição verborrágica. Por isso, sobrepõem-se aos demais. Guardam para si as pérolas que os outros atiram aos porcos.

Quem muito se explica, muito se complica, pois teme a própria singularidade.

É terrível o espectro de uma parcela dessa geração que se nutre de ruídos desconexos. Comunica-se por um código ilógico; balbucia letras musicais sem sentido; entope de sons os ouvidos, na ânsia de preencher o vazio do coração. São seres transcendentes, porém cegos. Trafegam por veredas perdidas, sem consciência de que procuram fora o que só pode ser encontrado dentro.

O silêncio não é quebrado apenas pelos ruídos, mas também por símbolos, logotipos, outdoors, linhas arquitetônicas de mau gosto. A poluição visual desgasta o espírito. A cidade encobre sua beleza com a propaganda que sujeita o olhar à solicitação incessante.

Quem cala, consente? O sábio, “com sente”. Capta melhor o drama ou a alegria alheia. Compaixão. Qual um radar, não emite sons e, no entanto, apreende o que se passa em volta.

O índex do totalitarismo do consenso neoliberal decreta, hoje, o silêncio dos conceitos altruístas. Grita-se competitividade, concorrência, “performance”, disputa, privatização… Cala-se solidariedade, cooperação, doação, partilha, socialização. Edifica-se a barbárie em nome de uma civilização prometeica, na qual muitos são os excluídos e poucos os escolhidos.

Saber calar, saber falar; é alcançar a sabedoria. Só quem conhece a beleza do silêncio, dentro e fora de si, é capaz de viajar por seu próprio mundo interior pacote impossível de ser encontrado em agências de turismo. Trata-se de uma exclusividade das tradições religiosas milenares.

Frei Betto

fonte: http://www.msc.com.br/santuariodasalmas

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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Só se salva e ganha a vida eterna quem aceita Jesus? nesse caso, só os cristãos serão salvos?

Como teólogo não posso deixar de render minhas homenagens ao Padre jesuíta João Batista Libânio, que faleceu dia 30 de janeiro deste ano. O Pe. J.B. Libânio foi autor de mais de 125 livros além de diversos artigos. Era Doutor em teologia e dedicou -se por mais de 30 anos ao ensino e a pesquisa teológica.
O Pe. Libânio teve sua teologia diferenciada devido assumir em plenitude a proposta do Concilio Vaticano II, que é sair de si mesmo, por isso sua reflexão teológica não é fria ou puramente intelectual mas é ousada, entusiasmada e penetrante.
Libânio não limitou-se apenas a vida acadêmica, pastoralmente também foi um marco, principalmente com a juventude e podemos ver o tamanho do seu compromisso com os jovens pela homenagem feita pelo jornalista Chico Pinheiro que fez parte do grupo de Jovens Tropa acompanhado por Libânio: "
"Já não era o nosso amigo padre, era “Liebe”, era Teilhard, era João Batista, era Profeta, era ele mesmo Sacramento, corpo que se tornava unidade, homem-pão-vinho, permitindo, a cada um de  nós, pouco mais que meninos e meninas, tocar com nossas mãos a Sagrada Majestade do Real".[1]

Em meio a tantas homenagens feitas por diversas figuras ilustres tais como bispos, padres, professores, companheiros, alunos e discípulos, ouso homenageá-lo partilhando um pequeno texto de seu pensamento teológico brilhante,que no seu caso nunca esteve desassociado com sua prática de vida fundamentada no Cristo e Senhor nosso. Como ele mesmo disse:
“O amor visa à eternidade.  Então toda pessoa que ama não ganha o céu, é já a eternidade feliz iniciada".
Hoje ele vive a realidade do céu  já inicia  aqui.

Só se salva e ganha a vida eterna quem aceita Jesus? nesse caso, só os cristãos serão salvos?

Por Pe. J. B. Libanio, sj

Quando a pergunta vem viciada, a resposta já fica comprometida. A vida eterna não é uma realidade independente, que existe como uma coisa que se ganha ou se perde depois da morte em troca de ações realizadas. Assim como um prêmio da loteria esportiva, que se obtém com a cartela preenchida corretamente.

A vida eterna já se inicia aqui na terra e se constitui fundamentalmente pelas relações que criamos. O teólogo J. Ratzinger, hoje Bento XVI, escreveu: “todo amor quer eternidade – o amor de Deus não só a deseja, como a realiza e é” (RATZINGER, J. Introdução ao cristianismo: preleções sobre o símbolo apostólico. São Paulo: Herder, 1970. p. 302). E na encíclica Deus Caritas Est retoma ideia semelhante: “O primeiro é que entre o amor e o Divino existe qualquer relação: o amor promete infinito, eternidade – uma realidade maior e totalmente diferente do dia a dia da nossa existência”; “O amor visa à eternidade”. Traduzindo em linguagem simples, a eternidade não se ganha nem se perde, mas é o amor que vivemos aqui e ultrapassa o tempo e espaço para dentro da infinitude de Deus. Então toda pessoa que ama não ganha o céu, é já a eternidade feliz iniciada.

E Jesus Cristo? Ele manifestou tal realidade em grau máximo e nos possibilitou vivê-la, mas não necessariamente em relação explícita a ele. Desconhecendo a Jesus, mas amando, alguém participa da fé nele. E por isso já vive incoativamente a eternidade na medida do amor.

A fé que salva é aquela que está informada de amor. Aceitar Jesus significa sair de si, cuidar do outro, realizar o que ele nos ensinou no evangelho, mesmo sem saber que se trata dele. Que Jesus dirá aos que entrarão na sua glória eterna? Que ele teve fome, sede, foi peregrino, esteve nu, enfermo e preso e foi socorrido. Quando? Todo pequeno serviço que se fez a um dos irmãos menores foi a ele que se fez (Mt 25,31-40). Aí está a melhor definição da fé em Jesus Cristo. O serviço da caridade.

Nessa perspectiva, a pergunta soa bem diferente. O correto seria perguntar: alguém que foi radicalmente egoísta, que não amou seu irmão, poderá salvar-se, quer seja cristão de batismo, quer não? A resposta soa: não. Não porque Deus o condene, mas porque ele se constituiu um ser sem amor. E ser-sem-amor é idêntico a inferno. Vale o contrário. Quem saiu de si, amou os irmãos, foi fundamentalmente próximo aos demais, se salva, quer seja cristão, quer não? Sim. Mais: ele já é céu aqui na terra e, depois da morte, revelar-se-á plenamente a verdade de tal vida.

Cristão que não ama não estabelece nenhuma relação de amor e de eternidade com Deus. Portanto, não pode conviver com um Deus que é amor, porque não quer amar. Um não cristão que ama está em íntima relação com o Deus que é amor e, por conseguinte, já começou a ser céu e o será eternamente. Mais correto é dizer que somos céu e não que vamos ao céu. E só se é céu pelo amor. E o contrário. Não perdemos a vida eterna, não vamos para o inferno, como se fosse um lugar, mas nos tornamos inferno, porque não amamos.

E santo Agostinho nos recorda que “somos o que amamos”. Se amamos somente a nós mesmos, somos solidão individual. Se amamos os irmãos, somos comunidade de amor. E a vida eterna não é nada mais que comunidade de amor entre nós na força do amor de Deus que nos sustenta no ser para sempre.

texto do Pe. J.B. Libânio postado por: http://www.vidapastoral.com.br/

______________________________

[1] Disponível em <http://www.ihu.unisinos.br/noticias/527834-joao-batista-libanio-1933-2014-homenagem-de-chico-pinheiro>. Acessado em 06/02/2010.

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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Os domingos precisam de feriados


Este texto do Rabino Nilton Bonder trás uma reflexão muito importante sobre  o descanso. Na atualidade estamos muitas vezes fingindo que descansamos, porém, o descanso está muito além do que é proposto por esta sociedade marcada pelo consumo desenfreado.





Toda sexta-feira à noite começa o shabat para a tradição judaica. Shabat é o conceito que propõe descanso ao final do ciclo semanal de produção, inspirado no descanso divino, no sétimo dia da Criação. 


Muito além de uma proposta trabalhista, entendemos a pausa como fundamental para a saúde de tudo o que é vivo. A noite é pausa, o inverno é pausa, mesmo a morte é pausa. Onde não há pausa, a vida lentamente se extingue.

Para um mundo no qual funcionar 24 horas por dia parece não ser suficiente, onde o meio ambiente e a terra imploram por uma folga, onde nós mesmos não suportamos mais a falta de tempo, descansar se torna uma necessidade do planeta. Hoje, o tempo de 'pausa' é preenchido por diversão e alienação. Lazer não é feito de descanso, mas de ocupações 'para não nos ocuparmos'. A própria palavra entretenimento indica o desejo de não parar. E a incapacidade de parar é uma forma de depressão. O mundo está deprimido e a indústria do entretenimento cresce nessas condições. Nossas cidades se parecem cada vez mais com a Disneylândia. Longas filas para aproveitar experiências pouco interativas. Fim de dia com gosto de vazio. Um divertido que não é nem bom nem ruim. Dia pronto para ser esquecido, não fossem as fotos e a memória de uma expectativa frustrada que ninguém revela para não dar o gostinho ao próximo.
Entramos no milênio num mundo que é um grande shopping. A Internet e a televisão não dormem. Não há mais insônia solitária; solitário é quem dorme. As bolsas do Ocidente e do Oriente se revezam fazendo do ganhar e perder, das informações e dos rumores, atividade incessante. A CNN inventou um tempo linear que só pode parar no fim. Mas as paradas estão por toda a caminhada e por todo o processo. Sem acostamento, a vida parece fluir mais rápida e eficiente, mas ao custo fóbico de uma paisagem que passa. O futuro é tão rápido que se confunde com o presente. As montanhas estão com olheiras, os rios precisam de um bom banho, as cidades de uma cochilada, o mar de umas férias, o domingo de um feriado.
Nossos namorados querem 'ficar', trocando o 'ser' pelo 'estar'. Saímos da escravidão do século XIX para o leasing do século XXI - um dia seremos nossos? Quem tem tempo não é sério, quem não tem tempo é importante. Nunca fizemos tanto e realizamos tão pouco. Nunca tantos fizeram tanto por tão poucos.
Parar não é interromper. Muitas vezes continuar é que é uma interrupção. O dia de não trabalhar não é o dia de se distrair - literalmente, ficar desatento. É um dia de atenção, de ser atencioso consigo e com sua vida. A pergunta que as pessoas se fazem no descanso é 'o que vamos fazer hoje?' - já marcada pela ansiedade. E sonhamos com uma longevidade de 120 anos, quando não sabemos o que fazer numa tarde de domingo.
Quem ganha tempo, por definição, perde. Quem mata tempo, fere-se mortalmente. É este o grande 'radical livre' que envelhece nossa alegria - o sonho de fazer do tempo uma mercadoria. Em tempos de novo milênio, vamos resgatar coisas que são milenares. A pausa é que traz a surpresa e não o que vem depois. A pausa é que dá sentido à caminhada. A prática espiritual deste milênio será viver as pausas. Não haverá maior sábio do que aquele que souber quando algo terminou e quando algo vai começar. Afinal, por que o Criador descansou? Talvez porque, mais difícil do que iniciar um processo do nada, seja dá-lo como concluído.

Rabino Nilton Bonder

postado por: http://www.amaivos.uol.com.br/

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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Teólogos juntam-se a Departamento de Física e Astronomia para debater neurociência, teologia e filosofia

Teólogos juntam-se a Departamento de Física e Astronomia para debater neurociência, teologia e filosofia.
Fé, razão e progresso científico debatidos em contexto interdisciplinar é a proposta do ciclo de conferências “Quem é o homem? Entre neurociência, teologia e filosofia”, que vai decorrer na cidade italiana de Pádua entre 6 e 27 de março.
A iniciativa é organizada pela Faculdade de Teologia do Triveneto, em parceria com o Departamento de Física e Astronomia da Universidade de Pádua, que acolherão alternadamente as conferências.
«Quais são as potencialidades e os limites» proporcionadas pelas «inovadoras técnicas das neurociências» que oferecem imagens inéditas do cérebro humano, questiona a nota de apresentação dos colóquios.
Que «estímulos» oferecem estas novas capacidades «para repensar a ética e o próprio significado do ser humano? A teologia e a filosofia são desafiadas por uma aproximação que coloca de maneira completamente nova antigas interrogações sobre a liberdade, o agir moral, a fé, envolvendo um amplo espetro de saberes».
“Instrumentos das neurociências; cenários das neurociências”, “Liberdade ética, relações: um olhar neurocientífico”, “Neuroteologia?” e “Filosofia e teologia diante das interrogações das neurociências” constituem os títulos dos quatro debates.
O encontro, que decorre pela quarta vez, pretende valorizar «a exigência de clareza e de abertura ao diálogo provenientes dos docentes, e dos estudantes, sobre temas de fronteira e sobre a investigação teológica, no respeito e na valorização das especificidades disciplinares».
Desde a sua criação, em 2011, a iniciativa propõe-se atualizar os conhecimentos de professores de disciplinas científicas e ligadas à religião católica, como também de filosofia e outros saberes, «sobre os mais recentes desenvolvimentos em algumas áreas de fronteira, mas também sobre a investigação teológica».
O propósito dos encontros passa igualmente por «mostrar a possibilidade de um diálogo frutuoso entre disciplinas aparentemente distantes, se não mesmo – na perceção comum – contrapostas».

Autor: Rui Jorge Martins

postado por : http://www.snpcultura.org/

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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Frei Carlos Mesters fala sobre a a realidade do acesso às Sagradas Escrituras, círculos bíblicos e leitura popular


Frei Carlos Mesters, conhecido por todo o país por conta dos seus livros publicados e cursos ministrados. O frade carmelita é holandês, e veio como missionário ao nosso país em 1949, morando atualmente em Unaí, no estado de Minas Gerais. Doutor em Teologia Bíblica, é membro fundador do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), que tem como objetivo difundir a leitura da Bíblia nos meios populares. Frei Mesters concedeu ao Portal da Arquidiocese de Maceió esta entrevista, onde fala sobre a realidade do acesso às Sagradas Escrituras, círculos bíblicos e leitura popular.

Como o senhor vê a realidade hodierna em relação aos católicos e a leitura das Sagradas Escrituras?

Quando eu pergunto, por exemplo, em um curso sobre bíblia, se há 50 anos, os participantes possuíam as Sagradas Escrituras, poucos responderiam que sim. Contudo, se falo no tempo de agora, todos levantariam as mãos dizendo que sim. É uma nova fase! Muita gente lê a Bíblia diariamente, e quando faz isso, sobretudo nas comunidades de base, não é sobretudo para colocar doutrinas na cabeça, mas para conversar com Deus. É como alguém que todos os dias pega o telefone e conversa com um amigo; muitas pessoas conversam então com Deus diariamente e sentem Deus falar com elas. Esta maneira de ler a Bíblia, acredito eu, que vem como fruto do próprio fato do Concílio Vaticano II. Ali, foi dito de início: “Deus se revela a si mesmo, ele se comunica com a gente”. É isto que o povo sente. Fazem um ato de fé, dizendo que Deus está com ele e ele está com Deus. Isto é um pouco do que Jesus fez quando se encontrou com a samaritana. Jesus podia ter dito ali no poço: “Eu sou o Messias e vim para ensinar você”. Mas, não. Jesus disse: “Dá-me um pouco de água, pois estou com sede!” Olha, que bonito! É outra forma de comunicação que faz a pessoa se sentir importante porque precisa dela, e aí criam-se condições de um diálogo. É isso que está acontecendo na leitura da Bíblia hoje. Pouco a pouco, ela deixa de ser simplesmente um livro só de doutrina, para ser, em primeiro lugar, um livro de conversa com Deus.

Esta mudança de situação, em sua análise, se deve exclusivamente ao Concílio Vaticano II?

Em parte sim, mas também por conta do encontro dos bispos em Medellín e todo o movimento que vinha antes do Concílio. A Bíblia começou a ser traduzida aqui, depois do Concílio, com uma divulgação rápida. Por exemplo, a bíblia da editora Ave-Maria, já teve mais de duzentas edições. São muitas! Talvez não seja a melhor tradução, mas foi a Bíblia que melhor ajudou a divulgar a Palavra de Deus no meio do povo.

O senhor foi um promotor da leitura popular das Sagradas Escrituras. Atualmente, quais as suas impressões sobre isso?

Quando se diz leitura popular, significa que o povo está lendo a Bíblia. O povo tem seu jeito de conversar, como também tem seu jeito de ler as Sagradas Escrituras. Leva consigo suas perguntas, suas alegrias, suas tristezas. Se uma senhora tem uma criança doente em casa e conversa com outra, caso esta fale que tem um menino bom em sua casa, consequentemente a primeira se lembrará do seu filho que está doente, não é verdade? Então, quando o povo lê a Bíblia e escuta a seguinte frase: “Eu escutei o clamor do meu povo”. Imagine! Hoje se tem muito clamor, não é? O povo então percebe que inclusive hoje Deus escuta o seu clamor. É este o sentido: uma ligação entre Bíblia e vida, entre vida e Bíblia. Antigamente, isso se chamava de leitura simbólica. Quando se diz desta forma, se pensa em símbolo. Mas, não é não. O oposto de simbólico é diabólico, ou seja, separa Bíblia e vida. Eu acho que é isto que o povo faz hoje, liga a Bíblia com a vida e assim a vida ajuda a entender a Bíblia e vice-versa. Por detrás está a certeza que a Bíblia é a Palavra de Deus.
E sobre os Círculos Bíblicos? Foi o grande instrumento para a difusão da leitura popular da Bíblia?

Eu acredito que os Círculos Bíblicos são a melhor coisa que o Brasil tem. O povo se reúne em torno da Palavra de Deus e partilha a fé que possui. Quando você se reúne nestes círculos bíblicos, não é para brigar, para discutir quem sabe mais, mas para que cada um possa dizer o que encontra na Bíblia, como vive sua fé. Você sabe o que é conversa grande? É conversão! Em português dá certo. Na medida em que você conversa, você vai se convertendo. Só Deus é quem sabe no Brasil quantos círculos bíblicos nós temos! Em todo canto tem! Em grupo, a dois, em família, em comunidade... Sabe quanto anos tem o círculo bíblico? Desde o tempo de Jesus. O que é um círculo bíblico? É povo reunido em torno da Palavra de Deus para ler, rezar e discutir juntos, vendo onde pode se ajudar mutuamente. Isso Jesus fez em Nazaré toda semana no sábado, na sinagoga.

O senhor é considerado iniciador de um método conhecido como triângulo hermenêutico. Poderia nos falar mais sobre o mesmo?

Eu não inventei nada. O povo simplesmente lê, reza e vê como pode traduzir isso na vida. Se você chama isso de triângulo hermenêutico, é uma palavra difícil... Pode ser! No fundo é apenas fazer o que se fazia no tempo de Jesus. Um rabino, pouco tempo depois de Jesus afirmou que o mundo repousa sobre três fundamentos: a lei, o culto e o amor. A lei é a Bíblia, o culto é a reza, o amor é a ajuda mútua. É como café, leite e açúcar, misturou, não se separa mais! Na leitura bíblica têm essas três coisas: a leitura, reza e ajuda mútua. É o que Jesus fez no caminho de Emaús.

Em sua visão, quais as maiores problemáticas em torno das Sagradas Escrituras por parte dos católicos, em termos, por exemplo, de estudos ou acesso?

A primeira dificuldade é o preço. A bíblia não é barata. Vejo pessoas que compram a prestações. Outra questão é a tradução. Há varias! Mais de dez traduções em português. Há algumas que são um pouco mais difíceis, feitas mais para o estudo, outras para ajudar o povo a entender, como uma na Linguagem de hoje. Tem a Pastoral, a CNBB, a de Jerusalém, a de Aparecida... isso é útil, mas às vezes atrapalha. Você diz ao povo: “vamos abrir o salmo 50” e cada pessoa abre em uma tradução diferente. Mas, estas são dificuldades de menos, outras, de fato, são a linguagem, a história e o contexto. Com explicar algumas coisas que aconteceram no Antigo Testamento? As próprias notas ao pé da página ajudam justamente nisso. Mas, mesmo com essas dificuldades, o povo ainda continua lendo, ultrapassando as dificuldades.

O senhor já possui muitos livros publicados. Há mais algum em vista?

Quando uma pessoa casa, não sabe quantos filhos vai ter. Deixa por conta de Deus. A gente faz conforme as necessidades. Quanto se precisa, por exemplo, para o mês da Bíblia, algo mais simples, isso sai. Afirmo que tudo é unicamente para ajudar.

Pena de morte - para quê, para quem?


A China tem cerca de 1 bilhão e 300 milhões de habitantes. Possui também uma realidade contraditória, do ponto de vista político e econômico. É um país teoricamente comunista, mas que pratica uma das mais ferozes economias capitalistas, em especial quando o assunto é exportação.

A China é também conhecida, entre outras coisas, como o país que mais utiliza a pena de morte, inclusive para crimes de corrupção ativa e passiva. Se a moda pega...
Neste quesito, o sistema penal chinês tem outras particularidades, como o fato da família ter que pagar o custo da bala utilizada na execução (um tiro na nuca do condenado) e o uso compulsório de seus órgãos em transplantes.
A divulgação do número anual de executados na China é censurada pelas autoridades, mas dados da Anistia Internacional afirmam que o país continua líder no ranking mundial, ao lado do Irã e da Arábia Saudita. Para se ter uma referência, os Estados Unidos, 5° lugar na lista, registraram 39 execuções em 2013. Até o Japão aparece na lista, com 8 execuções.
Já aqui no Brasil...
Apesar da pressão da mídia hematófaga, liderada pelos ‘datenas’ da vida, a pena de morte continua fora do nosso código penal.
‘Fora’, em termos. No Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís do Maranhão, feudo dos clãs dos Sarney, Murad, Cafeteira, Lobões e Cia, houve, neste 2013, 59 execuções sumárias. Só em uma semana, agora, em dezembro, foram sete assassinatos.
Segundo relatório do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PMDB), perdeu qualquer autoridade sobre esse pedaço do território do seu Estado. No Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís, quem manda são os criminosos.
Só lá...?
Corta para outra cena: Romeu Queiroz, deputado Estadual e federal por Minas Gerais, em várias legislaturas, presidente da Assembleia Legislativa por dois períodos, desembarcando, algemado e seguindo para a penitenciária onde cumprirá a pena a que foi condenado. Kátia Rabelo, presidente de um banco (de um banco!!!), seguindo o mesmo destino. Quase duas dezenas de, outrora autoridades da República, passando as festas de fim de ano na Papuda e adjacências...
Antes que você faça ligação entre uma coisa e outra, não, não estou propondo pena de morte pra ninguém. Sou contra ela por razões filosóficas e práticas. Acho que a pena de morte, além de não resolver o problema da violência, é desumana e desumanizante, um retrocesso no nosso processo civilizatório que começou com a Lei do Talião, a do olho por olho, dente por dente e chegou ao tribunal do júri e às cortes de justiça, como o Supremo Tribunal Federal.
Além de ineficaz, penso que o ato de executar, ainda que ‘legalmente’ uma pessoa, poderia ser enquadrado em vários quesitos usados para caracterizar o chamado “crime hediondo”. É violência premeditada, levada a efeito por meios cruéis e recursos que impedem a defesa da vítima, precedida de tortura (física e psicológica), além de ser fruto de formação de quadrilha e associação para o crime (juntando o júri, a promotoria, o juiz e a plateia).
Quem quiser fazer uma boa reflexão sobre o assunto, aproveite as férias e assista ao filme “Os últimos passos de um homem”.
A realidade do presídio de Pedrinhas é um retrato da realidade no resto do País. Ainda que não exista no nosso código penal, a pena de morte é largamente utilizada, que o diga (se pudesse dizer) o pedreiro Amarildo.
Mas, imagino, nossas elites devem estar com os cabelos recém implantados de molho. Ver seus colegas algemados, trancafiados (não sei por quanto tempo...) passando o Natal atrás das grades, pode mexer com suas certezas e convicções de impunidade.
Vai que o Brasil resolve levar esse negócio de Justiça a sério?

Autor: Eduardo Machado

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  • sábado, 4 de janeiro de 2014

    Beato José de Anchieta poderá ser canonizado neste ano

    Conhecido como “Apóstolo do Brasil”, o beato José de Anchieta foi responsável pela criação do colégio de Piratininga no dia 25 de janeiro de 1554, que deu origem à cidade de São Paulo. O missionário, que chegou ao Brasil em 1553, deve ser canonizado no próximo ano. Natural de Tenerife, nas Ilhas de Canárias, na Espanha, ele nasceu no dia 19 de março de 1534.
    No decorrer de sua vida, o padre passou por cidades como São Paulo, Espírito Santo e Bahia propagando os ensinamentos do Evangelho. Faleceu na cidade de Reritiba (atual Anchieta no Estado do Espírito Santo) em 9 de junho de 1597.
    Em coletiva de imprensa, na quarta-feira, 18 de dezembro, o arcebispo de Aparecida (SP) e presidente da CNBB, cardeal Raymundo Damasceno Assis, comentou sobre o pedido feito pela Conferência no Brasil ao papa Francisco para a canonização do beato Anchieta.
    “Durante a visita da presidência da CNBB ao Santo Padre no mês de outubro, entregamos uma carta com o pedido da canonização deste grande apóstolo, também declarado pela Conferência do Brasil como padroeiro dos catequistas”, explicou
    Em telefonema ao cardeal, o papa Francisco expressou acolhimento ao pedido da canonização. Para o arcebispo, esta é uma surpresa para a Igreja no Brasil. Ele afirma que este não é um desejo somente dos bispos, mas de cada pessoa que atribui santidade ao beato.
    “Somos muito gratos ao papa em acolher esse pedido não só da CNBB, mas de várias instituições e do povo brasileiro que deseja ver o beato Anchieta venerado publicamente em todo o mundo e como modelo de santidade, no seguimento de Jesus, disse.
    Canonização
    O padre Anchieta foi beatificado pelo papa João Paulo II, em Roma, em 22 de junho de 1980. A data da canonização ainda não está definida, mas pode ser que ocorra ainda em 2014. O trabalho prossegue agora com a Congregação das Causas dos Santos.
    A preparação da Positio em Roma, ou seja o texto com a biografia de Anchieta, uma relação de prováveis milagres e a dimensão nacional e internacional de sua devoção, como também provas da sua fama de santidade, está sendo feita pelo padre César Augusto dos Santos.

    Por CNBB

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  • Catequese que educa para o diálogo

    Este é um texto de Therezinha M. L. da Cruz, autora de diversos livros na área de ensino religioso e catequese, a qual  chama atenção para o diálogo ecumênico como processo educativo a ser desenvolvido na catequese. É um ótimo texto que nos faz refletir sobre essa realidade tão esquecida na catequese.

    A Igreja tem insistido na ideia de pastoral de conjunto. Ser Igreja é ser comunidade. O "eu creio" não é vivido de modo isolado em relação ao "nós cremos". Dentro da comunidade há sensibilidades, diferentes, talentos específicos, preferências por modos de viver a espiritualidade de acordo com as necessidades e estilos de cada um. Tudo isso precisa ser desenvolvido num processo que saiba articular diversidade e unidade e desta forma estaremos unidos na adesão a Jesus, na ação de promoção dos valores do Reino, na colaboração mútua que vai fazer a comunidade uma visível família fraterna.
    Dentro dessa unidade devemos ser preparados para valorizar a diversidade e possibilitar a partilha de talentos e experiências que enriquecem nossa visão do compromisso cristão. É um péssimo testemunho não saber ouvir o diferente e tentar enquadrar todos e todas numa forma estreita que não permita que cada um seja conhecido e estimado na sua individualidade.
    Por tudo isso, a catequese tem que ter como método de trabalho, entre outras coisas, a espiritualidade do diálogo. A Igreja insiste na ideia de diálogo especialmente nos textos onde se fala de missão, ecumenismo e diálogo inter-religioso. É fácil perceber como esses campos precisam de pessoas capazes de ouvir o outro, de reconhecer qualidades que não costumam ser suas, de dar e receber no convívio com o diferente.
    Em 1998, uma comissão formada por católicos e evangélicos, numa ação do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil), produziu uma cartilha com o título Diversidade e comunhão um convite ao ecumenismo. A cartilha apresenta a espiritualidade do diálogo como instrumento gratificante para construir com alegria um mundo melhor. O texto diz: "bem-aventuradas as pessoas que cultivam as qualidades necessárias à vida cristã ecumênica". E essas qualidades são todas relacionadas à capacidade de entrar em diálogo sincero, não manipulador, com o outro: " Entre elas estão: o respeito ao direito alheio, a paciência, a humildade na busca da verdade, a caridade fraterna, a lealdade, o espírito de serviço, o amor prioritário aos valores do Reino, a solidariedade, o espírito de oração, o entusiasmo pela paz, a capacidade de discernir o bem onde quer que ele se encontre, a ternura pelos irmãos e irmãs, filhos do mesmo Pai. Agora imagine uma pessoa com todas essas qualidades. Será eficiente na vida cristã ecumênica, mas será também, por acréscimo, um ser humano melhor em todos os sentidos."
    O que a cartilha aplica ao ecumenismo vale, portanto, para todas as áreas da vida humana, mesmo fora da Igreja. Uma verdadeira capacidade para o diálogo enriquece a vida na família, na vizinhança, no local de trabalho, na comunidade e na sociedade em geral. Fica difícil construir um mundo novo e fraterno, sem capacidade para ouvir e valorizar o outro, com discernimento, é claro, mas principalmente com abertura para partilha, com respeito e com uma sincera valorização do diferente como alguém amado por Deus.
    A catequese é o grande processo de formação. Ela não é apenas ensino de doutrinas, ela é um chamado para que cada um valorize seus dons e os dons de outros, porque todos nós somos obras de um grande artista. Jesus sabia ouvir, entrava em diálogo e com isso fazia as pessoas terem vontade de ser sempre melhores. Seguindo o Mestre, ouvindo e sendo ouvidos, descobriremos a grande alegria de ter sempre mais parceiros, amigos, colaboradores na construção de um mundo melhor. 

    Por Therezinha M. L. Cruz


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  • sábado, 28 de dezembro de 2013

    E apesar de tudo a esperança não se defaz

    "Toda essa multidão 
    Tem no peito amor
    E procura paz
    E apesar de tudo 
    A esperança não se desfaz"

    Esse trecho da canção Jesus Cristo de Roberto e Erasmo Carlos serve para ilustrar bem uma experiência fundamental da existência humana que é a "esperança".
    Nesse trecho vemos que em meio a tantas dificuldades, ou seja, apesar de tudo o indivíduo tanto no âmbito pessoal ou social tem na esperança algo concreto para vida,  ela é a força que ajuda a viver, superar crises e enfrentar desafios.
    É necessário entender que a esperança é o encontro  dos desejos e projetos de vida, no qual anima o viver e ajuda cada um conviver, questão que exige o tempo todo esforço.
    Do ponto de vista cristão a esperança está atrelada a experiência Bíblica, de forma que este conceito no Antigo Testamento possui dois aspectos intimamente ligados: promessa e aliança.
    A promessa está ligada a Deus, pois por amor absoluto vem ao encontro do homem, e por ser promessa subtende-se que deve haver um Tu, ou seja, Deus promete algo à alguém e por isso ela adquiri caráter pessoal, e é esta promessa que sustenta a fidelidade desse alguém a sua aliança.
    Quem é este alguém?
    Quem é o  destinatário da promessa?
    É o povo de Deus reunido em Israel. Sendo esta promessa a razão de viver e de ser,  fonte de  nutrição da fidelidade deste povo à aliança (Gn 12, 1-3;Dt, 19,1-8).
    É em Jesus Cristo o pleno cumprimento das promessas feita a Israel e que através de suas ações desencadeia uma nova esperança fundamentada no Reino de Deus inaugurado por Ele, e que rompe totalmente com a concepção dos religiosos de Israel do seu tempo que atrelavam a sua esperança no prestígio e no poder e Cristo propôs uma esperança fundada na total entrega e  doação de si por meio da obediência demonstrada claramente na realidade na cruz.
    É olhando para o mistério da cruz e ressurreição de Cristo que o cristão finca a sua esperança,  é nesse acontecimento que existe a certeza de que a esperança jamais falha. É na  doação completa de si que o ser humano se torna pleno.
    Pode-se afirmar que  a partir da fé Bíblica que o cristão tem segurança de que seu desejo e esforço já estão envolvidos num amor maior e que lhe assegura a esperança definitiva.
    Nos dias de hoje em que se vê a injustiça, a mentira,  falta de caráter, guerras, corrupção, mentira e todo tipo de mal sobrepor o bem, como cristãos é necessário cumprir verdadeiramente a sua missão que é contagiar de esperança todos os homens mesmo diante de tanto mal.
    Não se sabe quando a humanidade atingirá a plenitude, e não se deve equiparar o progresso humano com o Reino de Deus, são ambas realidades distintas, porém o progresso se torna uma fração do Reino de Deus quando se é respeitado a dignidade humana.
    Também não se descarta a  esperança transcendente, ou seja, a morada no Céu preparada por Deus (Jo 14, 1-4), esta esperança divina se concretiza através da oração, trabalho e esforço humano na transformação do mundo.
    É a esperança,  energia divina e  vitalizadora que nos liberta da busca egoísta da felicidade individual, ela não é apenas uma convicção intelectual, mas um processo dinâmico que se traduz em afetividade e praticidade.
    É  a esperança que ajuda dar de  maneira responsável, um sentido à história.
    É a esperança que nos inspira  a caminhar na mesma direção.
    Que nesse ano de 2014 nasça, cresça e frutifique os Profetas da Esperança, não é redundância, mas, uma esperança.


    quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

    V Simpósio de Formação Ecumênica recebe inscrições


    Oferecer uma compreensão dos aspectos determinantes do pluralismo eclesial e religioso no Brasil é um dos objetivos do V Simpósio de Formação Ecumênica e XVI Encontro de Professores de Ecumenismo, que serão realizados, simultaneamente, entre os dias 17 e 19 de janeiro de 2014, em São Paulo. O evento é organizado pela Comissão Episcopal Pastoral para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso da CNBB, com o propósito de capacitar agentes de pastoral. O tema será os “50 anos de Unitatis Redintegratio, Nostra Aetate, Dignitatis Humanae”.
    De acordo com o assessor da comissão, padre Elias Wolff, “a realização do seminário se justifica pela necessidade de aprofundar a compreensão das orientações do Concílio Vaticano II sobre o ecumenismo e o diálogo inter-religioso, para favorecer atitudes de encontro, diálogo e cooperação entre igrejas e religiões”.
    Os interessados em participar devem informar os dados: Nome, Igreja, Instituição / Função, Endereço, Bairro, CEP, Telefone, E-mail e enviar para  ecumenismo@cnbb.org.br.



    segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

    Deixar as crianças brincarem na igreja durante a missa: é certo?

    Talvez as crianças atrapalhem, mas a comunidade deve incentivar a participação de toda a família


    Há pais que deixam as crianças correrem pela igreja durante a missa e brincarem no meio dos bancos. Para esses pais, é válida essa missa apesar da distração (que, aliás, afeta a comunidade toda)?

    Quem responde a esta pergunta de um leitor é o pe. Valerio Mauro, professor de Teologia Sacramental na Faculdade Teológica da Itália Central.

    A participação das crianças na missa é uma questão delicada, porque envolve muitos aspectos da vida eclesial. O sacramento da eucaristia exige um singular respeito e uma participação plena e ativa dos batizados, como o concílio nos recorda. O magistério apresenta a família como "igreja doméstica" e defende o seu valor único para a sociedade civil.

    Toda a comunidade eclesial, na fidelidade às palavras de Jesus, é chamada a deixar que “as crianças venham até ela”. Temos valores que não podem entrar em contradição, mas as suas urgências acabam entrando. A pergunta do leitor nos coloca diante de um dilema prático. Vamos olhar para alguns fatos da nossa realidade: nas paróquias, é cada vez menor a presença de famílias jovens e, portanto, de crianças pequenas.

    A nossa liturgia não foi feita à medida da criança, não se desenrola de acordo com uma comunicação e linguagem adequada para elas, nem poderia. No entanto, a missa tem uma dimensão de mistério que envolve todos nós como povo de Deus, arrebatando-nos da tentação do individualismo ou da satisfação emocional: nela, nós vivemos um encontro da graça, oferecido a todo batizado num momento comunitário. A teologia nos diz que, na celebração eucarística, o Espírito Santo não transforma só o pão e o vinho no Corpo e Sangue de Cristo, mas age na própria comunidade para torná-la cada vez mais o Corpo no Senhor.

    Se os pais participassem da missa em horários diferentes, eles poderiam cuidar das crianças por turnos em casa, mas será que é oportuno que as famílias, especialmente as mais jovens, se dividam justamente na hora de participar desse momento de fé comunitária? E as crianças levadas à missa podem viver esse momento sempre de boca fechada e quietinhas? Eu acho que precisamos procurar o equilíbrio, que só é possível caso por caso, comunidade por comunidade, conforme as diversas circunstâncias concretas, a começar pela estrutura de cada igreja.

    Nem todas as igrejas têm a mesma arquitetura. Em algumas, foi possível criar lugares para as crianças brincarem sob a vigilância dos pais, o que, para muitos, foi a melhor solução. Em outras igrejas, não é possível criar essas condições: nelas, os pais que levam os filhos à missa tentam fazer as crianças se sentirem à vontade, o mais serenamente possível.

    A igreja é a casa de todos: temos que partir desta certeza. Então vamos deixar as crianças brincarem na igreja? Para a criança, brincar não é só uma diversão, mas o principal modo de se comunicar com o mundo e de, gradualmente, adquirir conhecimento. Brincando, as crianças aprendem também a linguagem da fé. Se elas aprendem durante a celebração mantendo certo silêncio, embora não o tempo todo, eu, pessoalmente, não me incomodo. Mas sei que, para alguns outros sacerdotes, não é assim. E respeito a sua sensibilidade litúrgica.

    Quanto à pergunta específica do nosso leitor, os pais, de acordo com ele, se distrairiam com o comportamento dos filhos. E não só eles, pode-se acrescentar. Eu não acho, porém, que a discussão deva girar em torno da “validade jurídica” da participação na missa. Durante a celebração, as crianças podem incomodar alguns, é verdade. Por outro lado, as nossas comunidades eclesiais não deveriam favorecer ao máximo a presença completa das famílias? E será que o mistério de Deus é tão distante assim da vida real dos menorzinhos dentre os nossos irmãos? Talvez seja uma “deformação profissional”, mas, quando a discussão se volta para a validade da celebração eucarística, eu não consigo deixar de pensar nas palavras que o apóstolo Paulo dirigiu à comunidade de Corinto: "A vossa ceia não é a ceia do Senhor" (1 Co 11,20), porque eles celebravam a eucaristia num contexto de profunda desigualdade, com divisões cheias de invejas.

    As nossas celebrações eucarísticas são, em primeiro lugar, a reunião do povo de Deus, chamado a ouvir a sua Palavra e a participar do seu Corpo entregue por nós. Através dessa altíssima oração da Igreja, nós nos tornamos cada vez mais uma coisa só no Espírito de Cristo. Vamos conservar na mente esse dom original da graça: assim saberemos construir as melhores condições para vivê-lo juntos.


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  • O que desejamos no e do Natal?

    Dom Jacinto Bergmann
    Arcebispo de Pelotas (RS)

    Li há algum tempo atrás uma estatística interessante que a famosa revista Stern da Alemanha fez na época do Natal, perguntando aos alemães o que eles gostariam no e do Natal. Os quatro primeiros desejos expressos foram: 89% responderam: “Eu gostaria de estar junto com a família”; 54% responderam: “Eu me alegro com o encontro com os amigos, parentes e conhecidos”; 37% responderam: “O importante para mim é a celebração do nascimento de Jesus Cristo e a participação no culto”; e 21% responderam: “Para mim o mais importante são os presentes de Natal”.
    Chama a atenção que as duas primeiras respostas atendem uma necessidade bem humana: conviver com outras pessoas, sejam familiares, amigos e conhecidos. No mundo europeu, onde o progresso e o desenvolvimento deram passos gigantescos, o lado humano continua sendo a grande necessidade de realização. Nós somos mais humanos quanto mais convivemos com os outros. No dia-a-dia da vida, correndo atrás apenas do mero progresso e desenvolvimento material, acabamos nos desumanizando.
    Apenas a resposta em terceiro lugar na hierarquia dos desejos dos alemães, que, afinal, é o grande motivo do Natal: “a celebração do nascimento de Jesus Cristo e a participação do culto”, revela, como paulatinamente vai desaparecendo o cerne do Natal. Por isso, cada vez mais é necessário acentuar: Natal acima de tudo é Jesus Cristo. Se desaparecer este cerne, inclusive a grande necessidade humana da convivência vai águas abaixo. Conviver com o outro na paz, na justiça, na solidariedade, no perdão, na promoção só é possível quando tivermos consciência que cada outro é um Jesus Cristo encarnado.
    A quarta resposta sobre os “presentes”, como sendo o mais importante, mostra o quanto estamos nos materializando cada vez mais. Os presentes sempre são expressão de algo humano. Jamais podem tornar-se “o mais importante”. E onde fica o presente maior que é Jesus Cristo? A troca de presentes na época de Natal, enquanto expressão deste presente maior, somente isso tem algum sentido. Sem o mesmo, tornamo-nos cada vez mais materializados e conseqüentemente vazios. Apesar de tantos presentes, a humanidade anda vazia! O que preenche a pessoa humana é o grande presente Jesus Cristo, enviado por Deus-Pai e encarnado na nossa história na gruta de Belém, do qual todos os outros presentes são mera expressão.
    Enquanto fazia esta análise das quatro respostas dos alemães, vinha-me sempre em mente a forte curiosidade de saber como nós brasileiros nos posicionamos diante do Natal. Somos considerandos o país mais católico do mundo. Mas será que somos verdadeiramente cristãos? Os cristãos, como o próprio nome diz, colocam Jesus Cristo acima de tudo. Logo, Natal deveria ser em primeiro lugar a celebração do nascimento de Jesus Cristo e essa acontecendo nas celebrações eucarísticas natalinas nas comunidades cristãs. Afinal, Jesus nasce como? Especialmente em cada Eucaristia celebrada e participada. O resto é extensão disso.

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  • sábado, 21 de dezembro de 2013

    O materialismo do Papai Noel e a espiritualidade do Menino Jesus

    Um dia, o Filho de Deus quis saber como andavam as crianças que outrora, quando andou entre nós,“as tocaca e as abençoava” e que dissera:”deixai vir a mim as criancinhas porque delas é o Reino de Deus”(Lucas 18, 15-16).
    À semelhança dos mitos antigos, montou num raio celeste e chegou à Terra, umas semanas antes do Natal. Assumiu a forma de um gari que limpava as ruas. Assim podia ver melhor os passantes, as lojas todas iluminadas e cheias de objetos embrulhados para presentes e principalmente seus irmãos e irmãs menores que perambulavam por aí, mal vestidos e muitos com forme, pedindo esmolas. Entristeceu-se sobremaneira, porque verificou que quase ninguém seguira as palavras que deixou ditas:”quem receber qualquer uma destas crianças em meu nome é a mim que recebe”(Marcos 9,37).
    E viu também que já ninguém falava do Menino Jesus que vinha, escondido, trazer na noite de Natal, presentes para todas as crianças. O seu lugar foi ocupado por um velhinho bonachão, vestido de vermelho com um saco às costas e com longas barbas que toda hora grita bobamente:”Oh, Oh, Oh…olhem o Papai Noel aqui”. Sim, pelas ruas e dentro das grandes lojas lá estava ele, abraçando crianças e tirando do saco presentes que os pais os haviam comprado e colocado lá dentro. Diz-se que veio de longe, da Finlândia, montado num trenó puxado por renas. As pessoas haviam esquecido de outro velhinho, este verdadeiramente bom: São Nicolau. De família rica, dava pelo Natal presentes às crianças pobres dizendo que era o Menino Jesus que lhes estava enviando. Disso tudo ninguem falava. Só se falava do Papai Noel, inventado há mais de cem anos.
    Tão triste como ver crianças abandonadas nas ruas, foi perceber como elas eram enganadas, seduzidas pelas luzes e pelo brilho dos presentes, dos brinquedos e de mil outros objetos que os pais e as mães costumam comprar como presentes para serem distribuidos por ocasião da ceia do Natal.
    Propagandas se gritam em voz alta, muitas enganosas, suscitando o desejo nas crianças que depois correm para os pais, suplicando-lhes para que comprem o que viram. O Menino Jesus travestido de gari, deu-se conta de que aquilo que os anjos cantaram de noite pelos campos de Belém”eis que vos anuncio uma alegria para todo o povo porque nasceu-vos hoje um Salvador…glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa-vontade”(Lucas 2, 10-14) não significava mais nada. O amor tinham sido substituído pelos objetos e a jovialidade de Deus que se fez criança, tinha desaparecido em nome do prazer de consumir.
    Triste, tomou outro raio celeste e antes de voltar ao céu deixou escrita uma cartinha para as crianças. Foi encontrada debaixo da porta das casas e especialmente dos casebres dos morros da cidade, chamadas de favelas. Ai o Menino Jesus escreveu:

    Meus queridos irmãozinhos e irmãzinhas,

    Se vocês olhando o presépio e virem lá o Menino Jesus e se encherem de fé de que ele é o Filho de Deus Pai que se fez um menino, menino qual um de nós e que Ele é o Deus-irmão que está sempre conosco,

    Se vocês conseguirem ver nos outros meninos e meninas, especialmente nos pobrezinhos, a presenca escondida do Menino Jesus nascendo dentro deles.

    Se vocês fizerem renascer a criança escondida no seus pais e nas pessoas adultas para que surja nelas o amor, a ternura, o carinho, o cuidado e a amizade no lugar de muitos presentes.

    Se vocês ao olharem para o presépio descobrirem Jesus pobremente vestido, quase nuzinho e lembrarem de tantas crianças igualmente pobres e mal vestidas e sofrerem no fundo do coração por esta situação desumana e se decidirem já agora, quando grandes, mudar estas coisas para que nunca mais haja crianças chorando de fome e de frio,

    Se vocês repararem nos três reis magos com os presentes para o Menino Jesus e pensarem que até os reis, os grandes deste mundo e os sábios reconheceram a grandeza escondida desse pequeno Menino que choraminga em cima das palhinhas,

    Se vocês, ao verem no presépio todos aqueles animais, como as ovelhas, o boi e a vaquinha pensarem que o universo inteiro é também iluminado pela Menino Jesus e que todos, galáxias, estrelas, sois, a Terra e outros seres da natureza e nós mesmos formamos a grande Casa de Deus,

    Se vocês olharem para o alto e virem a astrela com sua cauda e recordarem que sempre há uma Estrela como a de Belém sobre vocês, iluminando-os e mostrando-lhes os melhores caminhos,

    Se vocês aguçarem bem os ouvidos e escutarem a partir dos sentidos interiores, uma música celestial como aquela dos anjos nos campos de Belém que anunciavam paz na terra,

    Então saibam que sou eu, o Menino Jesus, que está chegando de novo e renovando o Natal. Estarei sempre perto de vocês, caminhando com vocês, chorando com vocês e brincando com vocês até aquele dia em que chegaremos todos, humanidade e universo, à Casa do Pai e Mãe de infinita bondade para sermos juntos eternamente felizes como uma grande família reunida.

    Belém, 25 de dezembro do ano 1.

    Assinado: Menino Jesus


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  • sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

    Há saída para o desamparo atual e alegria para o coração?

    Inegavelmente vivemos tempos sombrios nos quais as estrelas-guias desapareceram e com elas a alegria de viver e a esperança de uma humanidade mais humana e de uma Terra mais cuidada. As promessas do projeto da tecno-ciência com seu sonho de um progresso ilimitado e da economia neoliberal de mercado oferecendo um consumo generalizado produziram decepção e fracassso. Excluiram milhõe e milhões de pessoas. Bem diz o Papa Francisco:”a sociedade técnica multiplicou as possibilidades de prazer mas tem  grandes dificuldades de engendrar alegria”(Exortação,n.7). Prazer é coisa dos sentidos. Alegria é coisa do coração. E nosso modo de ser é sem coração.

    Eis que no meio deste mal-estar mundial irrompeu uma figura que nos devolveu esperança, alegria e gosto pela beleza: o Papa Francisco. Seu primeiro texto oficial leva como títuloExortação Pontifícia Alegria do Evangelho.Todo texto vem perpassado pela alegria, pelas categorias  do encontro, da proximidade, da misericórdia, da centralidade dos pobres, da beleza, de “revolução da ternura” e da “mística do viver juntos”.

    Essa alegria não é de bobos alegres que o são sem saber porquê. Ela brota de um encontro com uma Pessoa concreta que lhe suscitou entusiasmo, lhe produziu elevo e simplesmente o fascinou. É a figura de Jesus de Nazaré. Não se trata daquele Cristo, coberto de títulos de pompa e glória que a teologia posterior lhe conferiu. Mas é o Jesus do povo simples e pobre, das estradas poirentas da Palestina que trazia palavras de frescor e de fascínio. O Papa Francisco testemunha o encontro com essa Pessoa.  Foi tão arrebatador que mudou sua vida e lhe criou uma fonte inesgotável de alegria e de beleza. Para ele evangelizar é refazer esta experiência e a missão da Igreja é resgatar o frescor e o fascínio pela figura de Jesus. Evita a palavra já feita oficial de “nova evangelização”. Prefere “conversão pastoral” feita de alegria, beleza, fascínio, proximidade, encontro, ternura, amor e misericórdia.

    Que diferença com os seus predecessores de séculos. Apresentavam um Cristianismo como doutrina, dogma e norma moral. Exigia-se adesão irrestrita e sem qualquer laivo de dúvidas pois  gozava das características da infalibilidade.

    O Papa Francisco entende o Cristinianismo em outra chave. Não é uma doutrina. É um encontro pessoal com uma Pessoa, com sua causa, com sua luta, com sua capacidade de enfrentar as dificuldades sem fugir delas.        Agradam-se sobremaneira as palavras contidas na Epístola aos Hebreus onde se diz que Jesus “passou pelas mesmas provações que nós… que foi cercado de fraqueza… que entre clamores e lágrimas suplicou àquele que o  podia salvar da morte e que não foi atendido em sua angústia”, consoante os estudos de dois grandes sábios nas Escrituras A. Harnack e R. Bultmann que dão essa versão no lugar daquela que está na Epístola”e foi atendido em sua piedade”(eusebeia em grego pode significar alem de piedade, também angústia)…”que teve que aprender a obedecer mediante o sofrimento”(Hebreus 4,15; 5,2.7-8).

    Na evangelização tradicional tudo passava pela inteligência intelectual (intellectus fidei) expresssa pelo credo e pelo catecismo. Na Exortação, o Papa Francisco chega a dizer que “aprisionamos Cristo em esquemas enfadonhos…e assim privamos o cristianismo de sua criatividade”(n.11). Em sua versão, a evangelização passa pela inteligência cordial (intellectus cordis) porque aí tem sua sede o amor, a misericórdia, a ternura e o frescor da Pessoa de Jesus. Ela se expressa pela proximidade, pelo encontro, pelo diálogo e pelo amor. É um cristianismo-casa-aberta para todos, “sem fiscais de doutrina” e não uma fortaleza fechada e intimidada.

    Pois é esse cristianismo que precisamos, capaz de produzir alegria, pois tudo o que nasce verdadeiramente de um encontro profundo e verdadeiro gera alegria que ninguém pode tirar. É como a alegria dos sulafricanos no sepultamento de Mandela: nascia do fundo do coração e movia todo o corpo.

    Falta-nos em nossa cultura mediática e internética esse espaço do encontro, do olho  no olho, de cara a cara, da pele a pele. Para isso temos que realizar “saídas”, palavra sempre repetida pelo Papa. “Saída” de nós mesmos para o outro, “saída” para as periferias existenciais (as solidões e os abandonos) “saída” para o universo dos pobres. Essa “saída” é um verdadeiro “Exodo” que trouxe alegria aos hebreu livres do jugo do faraó.

    Nada melhor que lembrar o testemunho de F. Dostoievsky ao “sair” da Casa dos Mortos na Sibéria:”Às vezes, Deus me envia instantes de paz; nestes instantes, amo e sinto que sou amado; foi num desses momentos que compus para mim mesmo um credo, onde tudo é claro e sagrado. Esse credo é muito simples. Ei-lo: creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais humano, de mais perfeito do que o Cristo; e eu o digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se encontra nele, prefiro ficar com Cristo a ficar com a verdade”.

    O Papa Francisco faria suas estas palavras de Dostoievsky. Não é uma verdade abstrata que preenche a vida, mas o encontro vivo com uma Pessoa, com Jesus, o Nazareno. É a partir dele que a verdade se faz verdade. Se 2014 nos trouxer um pouco desse encontro (chamem-no de Cristo, de o Profundo, o Mistério em nós, de o Sagrado de todo o ser) então teremos cavado uma fonte donde jorra alegria que é infinitamente melhor que qualquer prazer induzido pelo consumo.

    Leonardo Boff


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